O MAPA NÃO É O TERRITÓRIO

A map is not the territory it represents but, if correct, it has a similar structure to the territory which accounts for its usefulness. What this means is that our perception of reality is not reality itself but our own version of it or our map.
Alfred Korzybski

Quando tinha 3 anos de idade, o Paulinho ouviu três ou quatro referências do tipo: Quando tiveres 4 anos, se calhar vais aprender a andar de bicicleta. Quando tiveres 4 anos já vais estar mais crescido… Quando saiu do seu quarto no dia do aniversário, vinha muito entusiasmado a perguntar Já estou muito alto? Estou grande?  Consigo andar de bicicleta?… Ficou naturalmente muito dececionado quando se apercebeu de que não havia grandes diferenças, sem perceber porque o haviam enganado…

A criança tinha formado uma ideia própria a partir do que ouviu, interpretando as palavras dos adultos dentro daquilo que sabia e podia no seu mundo de experiências.

O mais importante pressuposto da PNL

O mapa não é o território, é o mais importante pressuposto que fundamenta a Programação Neurolinguística (PNL). Significa que a representação que temos da realidade é apenas um mapa e não a realidade, ou seja, o território. A Representação é interna, tem uma estrutura em termos de imagens, sons e sensações, cujo significado é diferente para cada pessoa. 

Partindo do princípio de que a interação possível com a realidade que nos circunda depende do que apreendemos através dos sentidos, do que vemos, ouvimos, cheiramos, provamos (paladar) e do tato, há que refletir sobre a forma como o cérebro atribui sentido ao que captamos.  Este processo passa pelo conhecimento anterior já adquirido, que por sua vez depende das crenças, valores, programas internos, experiências e vivências que atuam como filtros, ou seja, depende da história pessoal e única de cada indivíduo. Ao projetar a nossa experiência subjetiva anterior, gera-se um processo de generalização, omissão e distorção da imagem, som e sensações captadas, para que possam adquirir significado, encaixar e construir o mapa individual do mundo. A este mapa chamamos Representação Interna (RI), que consiste em imagens, sons e sensações responsáveis pela erupção de emoções e sentimentos. Cada pessoa irá então tomar decisões, agir e reagir a partir deste significado e consequentes emoções. 

Assumir que não sabemos

Ao ver, por exemplo, um motorista a passar à frente numa fila, podemos pressupor que foi por falta de civilidade ou então que poderá ser uma urgência. Cada hipótese irá levar a emoções e reações diferentes. Não seria mais sensato assumir que não sabemos? Se fosse alguém a furar a fila num supermercado, se tivermos em conta que o mapa não é o território, evitaremos julgar e poderemos optar por simplesmente avisar a pessoa, sem maiores emoções subjacentes.

Mesmo território, diferentes atitudes e comportamentos

Há dias precisei de tomar um transporte tipo Uber. Perguntei ao motorista, Vasco, como vai o trabalho, com tanto trânsito em Lisboa. O Vasco exprimiu o seu desânimo, dizendo que estava seriamente a pensar em ficar a trabalhar na pequena cidade onde mora, nos arredores, porque Lisboa já não vale a pena. Mais tarde no mesmo dia, tomei outro carro e fiz a mesma pergunta ao motorista, Wanderlei. Sofria do mesmo desânimo pela pouca rentabilidade do trabalho por causa do trânsito agravado pela pandemia em Lisboa. Mencionou onde mora e por coincidência, vivia na mesma cidade do Vasco. Naturalmente, perguntei se não seria mais vantajoso para ele trabalhar na sua cidade, ao que respondeu que não, porque lá havia pouco trabalho e não valia a pena. Ao menos em Lisboa não ficava nunca parado. 

Tanto o Vasco como o Wanderlei estavam a referir-se ao mesmo território (realidade), e ambos tinham um mapa distinto, o que levou a atitudes e comportamentos diferenciados.

Se ambos se conhecessem e falassem sobre o assunto, teriam duas hipóteses: ou discutiriam interminavelmente sobre quem tinha razão, ou explicariam um ao outro o que observaram e ficariam ambos com uma visão alargada da situação e um mapa alargado.

Reagimos à nossa perceção dos factos

Podemos concluir assim que não reagimos aos factos e acontecimentos externos, mas apenas à nossa perceção desses factos e acontecimentos. Aquilo a que chamamos realidade é apenas um conceito, pois só podemos ter um mapa, ou seja uma relação subjetiva com a realidade.

O conceito não é novo. Basta pensarmos na Alegoria da Caverna de Platão que atravessou milénios. Epíteto, há cerca de 2100 anos, já dizia que não somos perturbados pelas coisas, mas pela opinião que temos sobre elas

A utilidade deste pressuposto

Korzybski, especialista em semântica, trouxe de volta o conceito. Em 1934 referia a utilidade do mapa, neste caso as palavras, mas também a distinção entre as palavras e os seus referentes. O que se acrescenta com a PNL é a utilidade prática deste fundamento. Ao tomar consciência de que mapas diferentes podem ser complementares e que um mapa diferente do nosso não está necessariamente errado, mas apenas diferente porque nasce de uma pessoa com uma experiência de vida diferente da nossa, muitos dos mal-entendidos e conflitos do dia a dia poderão ser evitados

Experimente passar os próximos dias com este pressuposto em mente, procurando perguntar antes de julgar e reagir. Poderá assim, evitar tensões, tornar-se mais flexível e colaborativo, por oposição à competitivo, e viver de forma mais leve e alegre.

Boas experiências.

Texto de Luzia Wittmann, diretora do InPNL