AS MUITAS FACES DA PANDEMIA DA COVID-19

Muitas vezes, quando uma pessoa tem um acidente grave, passa por situações muito difíceis ou corre sérios riscos, passa a encarar a vida de outra forma e frequentemente muda as suas prioridades e comportamentos. Algum tempo depois, tantos reconhecem aquela situação como uma grande oportunidade e o motor para uma vida mais plena.

Será que isto também nos pode acontecer coletivamente neste momento de crise aguda e sem precedentes, provocada pela Covid-19?

Em todas as situações em que se apresenta um desafio grande, surge um dragão com poderes desconhecidos. Para o enfrentar, temos de passar por várias fases. Desde a chegada do vírus a cada país, começámos em conjunto esta viagem.

Na primeira fase, sentimo-nos assustados e paralisámos. Aconteceu o impensável. O que se passa?

A seguir, entrámos em negação ou vitimização, fase em que vimos muitas mensagens a desvalorizar o perigo, a dizer que era apenas mais uma gripe ou com teorias da conspiração. E fizemos de avestruz.

Depois, tivemos de levantar a cabeça e olhar para o dragão. Quisemos vestir armaduras e armar-nos para enfrentá-lo. Fase em que houve a corrida aos supermercados e farmácias, certamente exagerada em muitos casos, conforme o medo de cada um.

E cá estamos nas nossas trincheiras, a combater esse dragão. Em casa, resguardados, cada um a fazer a sua parte.

Se esta análise estiver correta, estamos a falar dos arquétipos da Jornada do Herói do Joseph Campbell. A última fase será a sabedoria de aceitar a crise e integrar todas as aprendizagens.

O que aprendemos?

Na minha perspetiva, a coisa mais importante que já aprendemos é que PODEMOS MUDAR RADICALMENTE. Já se evidenciou que É POSSÍVEL MUDAR TUDO, pelo bem de todos.  

As crenças e convicções limitadoras  de que não podemos parar, não podemos trabalhar em algo de que gostamos, não podemos reverter a crise climática, deixar de usar plásticos rapidamente, deixar de poluir, deixar de acelerar, deixar de comer produtos com pesticidas e toda a gama de químicos, açúcar e elementos prejudiciais à saúde, que não podemos estar mais tempo com os nossos entes queridos, que não podemos diminuir o stress, etc., etc… são apenas o resultado de um condicionamento coletivo, que podemos neutralizar e, na sequência, construir uma nova realidade para nós.

De repente, temos o ar mais limpo, ouvimos os passarinhos, o trânsito é mais que ameno…. Muitas famílias reaprendem a ter uma convivência diária, refeições em conjunto, atividades, partilha de tarefas e conversas. Podemos olhar com distanciamento para a forma como vivemos, normalmente, nas cidades e na lufa-lufa do dia-a-dia antes deste interregno. Agora, no recolhimento das nossas casas, podemos olhar para trás, para a forma como construímos as nossas vidas. Podemos parar no aqui e agora e olhar também para a frente. Num momento em que a finitude da vida está tão presente, talvez seja o momento ideal para nos questionarmos: como é que eu quero viver daqui para a frente? O que tenho eu adiado por medo e quero fazer? O leque de possibilidades é maior do que podemos imaginar.

Seria impensável parar um país por um mês em circunstâncias normais. Mas está a acontecer, apesar das consequências económicas que vai trazer.

Quando os valores mais altos estão em risco, neste caso a vida própria e a dos outros, tudo o resto é relativizado.

As iniciativas solidárias multiplicam-se. A criatividade e soluções para que as pessoas isoladas tenham assistência e se sintam acompanhadas é enorme. Na minha perceção, a população está a responder melhor do que era previsível.

Podemos realmente escolher entre sermos pessimistas ou otimistas neste contexto, dependendo dos argumentos que destacamos e pomos mais foco. Quase não é preciso dizer qual é a opção mais benéfica. Já sabemos que um estado interno positivo e otimista influencia muito o sistema imunitário, aumentando assim as possibilidades do nosso corpo no combate à doença, mesmo que infetados.

O nosso sistema global está a levar um abanão, mas há uma inteligência coletiva a manifestar-se. De alguma forma, todos os sistemas tendem ao autoequilíbrio e todo o caos resulta em criatividade e mudança.

Com amor, solidariedade e compaixão

Luzia Wittmann

Diretora do InPNL – Instituto Internacional de Programação Neurolinguística