AS MÁSCARAS

Em meio ao regozijo pela eleição da primeira mulher a vice-presidente dos EUA e a decisão dos americanos pelos valores humanistas, não podia deixar de refletir sobre o fenómeno Donald Trump.

Partilho esta imagem, que recebi há algum tempo de Peter Schutz num outro contexto, pois vale mais do que muitos parágrafos de teoria.

Estará Trump neste momento a confrontar-se com a última imagem? Não sei, mas espero que possa ser visto desta forma. Vários comentadores televisivos se referiram a ele como um menino mimado e birrento, incapaz de suportar ser contrariado ou aceitar a derrota. Mary Trump, no seu livro sobre o tio, escreve que o seu avô, pai de Donald Trump, era um sociopata, que fazia bullying com outros membros da família, educava os filhos para vencer a qualquer custo, provocando traumas que terão marcado a personalidade dos filhos, nomeadamente a de Donald Trump.

Muitos psicólogos e psiquiatras já declararam a sua convicção de que sofre de perturbações e desequilíbrios graves e incompatíveis com o papel de presidente.

O que parece fazer sentido é que o adulto Trump desenvolveu uma série de defesas para proteger a criança ferida que procura se esconder e não suporta mais dor e ainda tenta merecer o amor do pai.

E o quê levará tantas pessoas a identificarem-se com Trump, apesar das mentiras infantis, da ignorância e do descaso? Antes de julgar e tirar todo o tipo de conclusões, será talvez o momento de nos virarmos para dentro e observar que tipo de defesas construímos à volta da nossas próprias crianças interiores que ainda estão por desconstruir.

Ontem, Kamala Harris apresentou Joe Biden como um curador (healer). Não é só uma mulher que chegou ao poder, mas uma mulher com um discurso feminino, filha de imigrante e mulata. Biden reforçou a ideia de cura da alma americana. Uma escolha feliz de palavras, pois em termos arquetípicos, o healer está conectado com o amor. A alternativa saudável à violência, à discriminação e à demonização de uma personagem, seja esta personagem externa ou interna, pois no fundo estaremos sempre a lidar é com os nossos próprios demónios internos.

Servirá o trumpismo, apesar das sequelas, para aumentar a consciência política e humana a nível mundial?

Texto de Luzia Wittmann, diretora do InPNL