AS CRIANÇAS INTERIORES

Todos os anos, quando chega o Dia da Criança, tenho três ou quatro flashes de memórias felizes de um dia todo dedicado à brincadeira e diversão. Eu devia ter uns 6 anos. Parecia que todos os adultos estavam dedicados a nos fazerem felizes nesse dia, a nós, as crianças da escola.

Nesses momentos, conecto com uma parte de mim, construída em torno dessas memórias e emoções, capaz de despertar um calorzinho no coração. Uma criança interior feliz? Sim, e há outras menos felizes também. Estou convencida da existência de múltiplas crianças interiores em cada um de nós. Cada uma com a sua idade e feitio.

Vários especialistas em parentalidade afirmam que os pais devem cuidar da sua criança interior para serem melhores pais. Dito assim, pode parecer fácil por estar expresso no singular. Mas são muitas e cada criança interior corresponde a uma parte de nós, desenvolvida a partir de vivências felizes e plenas de confiança ou vivências traumáticas e difíceis. Estas últimas são as que despertam mais a nossa atenção e acabam por manifestar-se como crenças limitadoras no adulto.

Ao sentir-se frustrada ou posta de parte, quando queria participar e receber atenção, uma criança pode interpretar essa vivência como rejeição e, em consequência, criar uma crença de não ser suficiente ou de não merecer a atenção e companhia dos outros. Para contornar o “problema”, é natural essa criança criar um comportamento defensivo de autoproteção, como submeter-se demasiado às preferências e necessidades dos outros em detrimento das suas próprias. Diferentes experiências podem levar à construção de diversos comportamentos defensivos, como a agressão física ou verbal, o descontrole emocional, o medo de sair da zona de conforto e agir, entre muitas outras. São processos totalmente inconscientes.

Aos poucos, vamo-nos perdendo de nós mesmos e, a certa altura, podemos já nem saber quais são as nossas preferências, nem distinguir claramente quem somos e como queremos viver, aquilo que é socialmente suposto querermos e aquilo que foram e são as nossas cedências.

Como podemos lidar com essas partes ou crianças interiores? Não são simples máscaras que possamos arrancar, embora funcionem como tal. Convém lidar com elas de forma gentil e, em primeiro lugar, acolhê-las: convidá-las para a equipa interna e reconhecê-las como partes de nós. Depois, perceber a intenção de proteção e defesa como a intenção de promover o próprio bem-estar. Só então oferecer toda a aprendizagem feita pelo resto do sistema, permitir-lhe crescer e aprender a satisfazer a necessidade de bem-estar com outros e novos comportamentos.

Pode ser um caminho longo, mas é uma jornada fascinante. Resgatar essas crianças internas e tornar-nos adultos mais inteiros e resolvidos será provavelmente das melhores formas de recuperar a espontaneidade e transparência de uma criança.

Feliz Dia da Criança!

Texto de Luzia Wittmann, diretora do InPNL