UMA RELAÇÃO DE INTIMIDADE É ALGO QUE SE CONSTRÓI

Que nos perdoem os amantes dos contos de fadas, mas a bela adormecida e o príncipe encantado que encontram um amor perfeito instantaneamente e são felizes para sempre estão ultrapassados. A propósito da celebração do Dia de São Valentim, estivemos à conversa com Luzia Wittmann, Diretora do InPNL. Comunicação, estabelecer limites, manter a saúde e vitalidade dos nossos relacionamentos íntimos, foram alguns dos tópicos que surgiram: a relação como uma construção e um investimento, em que a Programação Neurolinguística pode dar um apoio precioso.

 

Hoje é um dia em que muitas pessoas celebram as suas relações e o amor que as une. Gostaria de falar um pouco contigo sobre a perspetiva da Programação Neurolinguística (PNL) e do InPNL sobre as relações amorosas e também sobre os contributos que podem dar para que elas sejam mais felizes e bem sucedidas. 

Eu começaria pela palavra amor, como é que a PNL pode contribuir, como é que isto está presente no que trabalhamos. O amor é um dos valores mais importantes da humanidade, de todas as pessoas, com toda a certeza; é daqueles valores mais altos e universais. Podemos falar em amor e depois em amor incondicional, mas é sempre amor e passa por todo o tipo de relações: entre pais e filhos, irmãos, amigos, mas aqui vamos focar mais nos enamorados.

Esse amor ligado a um relação de intimidade é algo muito especial e tradicionalmente ligava-se este encontrar o amor e a relação perfeita com uma felicidade perfeita. Hoje isso está desconstruído, felizmente. Já não é uma história do príncipe encantado ou da princesa adormecida que de repente acorda, mas sim algo que se constrói. E nessa construção entra um fator fundamental que é a comunicação.

Tendo um valor tão importante como base, pessoas que se amam, que querem estar juntas, precisam também de considerar que são pessoas diferentes que, para se complementarem, têm de manter a sua individualidade. Precisam de se manter inteiras, porque a partir do momento em que um se subjuga ao outro, em que uma deixa de se afirmar ou passa a seguir demasiado as opiniões do outro ou a vontade de um se sobrepõe à vontade do outro, há uma anulação da pessoa, em maior ou menor grau.

Isso diminui o interesse: o amor existe porque são pessoas diferentes, e essas pessoas são distintas por natureza. Cada um tem uma história, a sua experiência, cada pessoa tem o seu percurso de vida e necessidades diferentes. Podem estar de acordo, mas continuam a ser indivíduos.

Então, aqui entra a questão da comunicação. Comunicação tanto entre as pessoas como intra-comunicação, ou seja, comunicação consigo mesmo, no sentido de procurar aperfeiçoar-se a si mesmo e à qualidade da forma de comunicar.

Como é que isso se faz? Uma das coisas que nós trabalhamos muito em PNL é comunicar com precisão. O que é que isso significa? Comunicar da forma mais clara que conseguimos e sobretudo também, depois, assegurar-se de que o outro percebeu aquilo que queremos transmitir. O que é que nós tínhamos na nossa intenção ao comunicar?

E isso faz-se através de perguntas: o que é que a pessoa percebeu, se percebeu e também através da observação da reação na linguagem não verbal do outro. Muitas vezes, no momento, podemos ter compreendido uma coisa diferente, ficamos magoados e não dizemos nada. Mas o corpo fala e, através da comunicação não verbal, se estivermos atentos, podemos imediatamente perguntar o que é que a pessoa percebeu. O que é que ela entendeu daquilo que dissemos.

E a mesma coisa ao contrário: quando estamos a comunicar, especialmente quando ouvimos algo que não nos agrada ou é muito diferente do que pensávamos ou que é novo, em vez de fecharmos aquilo que foi dito e concluirmos ‘Eu sei, eu ouvi, eu sei o que a pessoa disse.’, perguntar: ‘É isso mesmo que queres dizer? Eu estou a ouvir isto e aquilo.’ Perguntar a que, especificamente, se refere; perguntar se tem a certeza; se há mais exemplos; o que aconteceria se soubesse/conseguisse/dissesse… Fazer perguntas no sentido de perceber exatamente o que é que a pessoa nos quer comunicar.

 

Quais serão então as características de uma comunicação saudável?

Uma comunicação saudável é uma comunicação que leva ao entendimento. Só podemos medir a qualidade da comunicação pelo seu resultado.

 

Não é que haja uma fórmula ou que a Programação Neurolinguística proponha alguma fórmula ou que tenha algum manual para a comunicação saudável: poderá haver diferentes caminhos para atingir o mesmo resultado. Poderá dar pistas, eventualmente.

Sim. Tem muitas fórmulas, muitas técnicas, mas cada uma aborda diferentes coisas. Desde a neutralização de reações emocionais negativas exageradas a aprender a “ler” o mapa mental do outro, passando por padrões específicos de linguagem, há um percurso maravilhoso a percorrer.

Perante uma comunicação muito vaga, por exemplo, vamos ter perguntas específicas. Se alguém diz algo como ‘Tu deixas-me triste’, perguntar ‘O que é que eu faço para te deixar triste?’

Não são fórmulas, como frases feitas, mas sim perguntas fundamentais e úteis que podem desenvolver uma conversa de compreensão e, ao compreender, podemos discordar sem estarmos em conflito. Se conseguirmos aceitar-nos e estivermos dispostos a crescer enquanto pessoas, podemos negociar o dia-a-dia.

Ao compreender, uma negociação torna-se possível.  Isso é fundamental para que uma relação funcione.

 

Estávamos assim a falar e eu pensei: isto é uma grande trabalheira…

(Risos) Não sei o que dá mais trabalho: aborrecermo-nos constantemente, ficarmos enervados e depois ter de fazer as pazes – se bem que fazer as pazes sempre é bom – ou procurar construir uma forma de conversar e chegarmos a conclusões.

Todos sabemos que há conversas difíceis; não é fácil conversar sobre determinadas coisas. É muito mais simples ficar calados, deixar passar e seguir em frente… Mas cada uma dessas coisas pode criar um certo pó, um certo resquício; pode ficar uma mágoa; mesmo sendo coisas pequeninas, podem acumular-se.

Depois, um dia, a pessoa está menos bem disposta e vai estourar. Estourar por uma gota de água, que é uma coisa pequenina. O tamanho da reação não se justifica, o outro não vai compreender. Na verdade, é uma resposta a todas aquelas pequenas mágoas e ressentimentos que foi acumulando ao longo de muito tempo. 

 

E quando isso já aconteceu? Quando, por algum motivo, deixámos acumular essas pequenas mágoas, essas pequenas desilusões ou pesos dentro de nós, como é que fazemos?

Se ainda houver amor, se quiserem ficar juntos, nunca é tarde para curar a relação. É preciso aprender a fazer isto: a comunicar, a descobrir  qual é a verdadeira intenção do outro e, a partir daí, chegar a uma compreensão.

Também é muito importante comunicar o que sentimos; comunicar se estamos bem, se estamos alegres, se estamos mais tristes; comunicar o que é que sentimos em relação ao outro, em relação à vida. É bom ser preciso, mas se nos dizem ‘Amo-te’, não vamos perguntar ‘Amas-me como?’ (risos). Se houver dúvidas, podem ser expressas, dizendo ‘Eu duvido’, por esta ou aquela razão, ao que podemos questionar ‘O que é que preciso fazer para compreenderes que eu te amo?’

 

Diferentes pessoas expressam o amor de diferentes formas, Isso pode também ser uma fonte de mal-entendidos.

Exatamente. Tenho vários exemplos de pessoas que achavam que já não eram amadas e, no dia que o partilharam, a outra pessoa ficou abismada: ‘Todos os dias eu demonstro o meu amor. Todos os dias te trago flores, mostro-te coisas, levo-te a ver coisas lindas.’ E a resposta foi: ‘Mas tu já não dizes com frequência que me amas.’ Aqui, havia uma necessidade de ouvir; o mostrar, o dar coisas, a forma como ele estava a comunicar o seu amor, para ela não era suficiente.

Talvez essa mensagem pudesse até ser recebida com desconfiança; no limite, ela podia até interpretar que estas expressões eram formas de agradar ocultando uma falta de amor real. Para outras pessoas, a expressão do amor é através do contacto, de um abraço, pessoas mais cinestésicas. Estamos a falar de visuais, auditivos e cinestésicos. Os cinestésicos precisam de demonstrações mais físicas.

 

No caso desta relação concreta que deste como exemplo, ela seria uma pessoa mais auditiva, precisava de ouvir, e ele era uma pessoa mais visual?

Sim, ele precisava de demonstrar, para ele era importante ver, e ela precisava de ouvir. Como é que eu transmito? Se a outra pessoa não compreende, talvez eu não esteja a transmitir a minha mensagem da melhor forma.

A melhor forma de transmitir a mensagem é sempre da forma como o outro entende melhor. O resultado da minha comunicação é a reação da outra pessoa. Através da forma como a outra pessoa reage é que eu vou saber o que é que transmiti.

 

Estamos a tocar a questão da nossa responsabilização nas relações, não é? Quando dás essa perspetiva de que a qualidade da comunicação se mede pelo entendimento que o outro faz dela, isso traz o tema de assumirmos essa responsabilidade. Quando há uma falta de entendimento, não colocar essa falta no outro mas perceber que temos alguma coisa a fazer aí, que temos esse espaço para melhorarmos nós próprios a comunicação, o que me parece uma mensagem bem esperançosa.

Exato. Muitas relações começam a ficar minadas por mal-entendidos que podem perfeitamente ser evitados. Se nós criamos um ambiente de mal-entendidos, a confiança,  a alegria de estar juntos, a alegria do encontro, começa a ficar mais apagada. Com o tempo, pode realmente destruir a relação.

É muito importante prestar atenção ao outro; prestar atenção à linguagem não verbal e também ao que a pessoa diz; desenvolver a nossa escuta ativa. As duas coisas estão sempre ligadas. O que nós dizemos e ouvir. Se não, o que há é um monólogo.

E às vezes há dois monólogos: duas pessoas a falar de coisas completamente diferentes, achando que estão a falar sobre o mesmo assunto, mas vai ser muito difícil terem o mesmo entendimento. Mais tarde vão conversar: ‘Não, mas tu disseste isso’, ‘Não, tu disseste, aquilo, eu ouvi.’ E tinham dito sim, essas coisas, mas cada um percebeu uma coisa diferente.

 

Isso não é nenhum defeito das pessoas. Esses mal-entendidos não acontecem por alguma má vontade ou insuficiência de alguém. São coisas que fazem parte das relações, e que nos colocam desafios.

Sim. Eu costumo dizer que a comunicação é um milagre. Nós conseguirmos usar as palavras e comunicarmos uns com os outros é um milagre, porque a comunicação é tão escorregadia que toda a atenção que lhe dermos não é demais para podermos melhorar as nossas relações.

 

O InPNL tem alguma forma de apoiar? Vamos imaginar um casal que gostaria de conhecer melhor a sua forma de comunicar e também aperfeiçoá-la, vocês têm alguma forma de apoio que possa ser dado a essas pessoas?

Temos várias formas. Temos a clínica, com atendimento individual e de casais e temos os cursos. Nas certificações, no Practitioner, por exemplo, que é um curso de 18 dias, 130 horas, nós aprendemos sobre comunicação. Com base nisto, a comunicação torna-se muito mais fácil.

Englobamos também as crenças que temos em relação ao que significa alguém nos amar ou amarmos alguém.

Ainda no outro dia alguém me disse que tem um novo namorado mas não está satisfeita porque ele não lhe escreve mensagens mais do que três vezes por dia. Isso é uma crença que dificulta muito uma relação, porque não é importante para todos enviar mensagens. Para algumas pessoas, interromper o trabalho várias vezes para enviar mensagens pode ser contraproducente e exagerado. Para outras, vai ser muito invasivo receber muitas mensagens.

Ter um tipo de crenças como esta, pode dificultar manter uma relação. Este é apenas um exemplo de um tipo de crenças que podem dificultar imenso manter um namoro.

 

E muitas vezes não temos consciência dessas crenças, que estão a atuar e a exercer a sua influência sem o percebermos.

Às vezes nós pensamos ‘É assim, são factos.’ No curso, aprendemos a comunicar melhor com o outro; vamos aprender a conhecer-nos melhor, o que nos vai permitir também conhecer melhor o outro e trabalhar coisas como crenças que nos limitam, não só na relação como também de uma forma geral. Coisas como ter dificuldade em dizer que não, ter dificuldade em estabelecer os seus limites; o manter-se um indivíduo estando numa relação, que é uma coisa que acontece com muita frequência.

 

É um tema, esse, não é?

É um tema muito vasto e muito fundamental e relaciona-se com o tipo de experiências que tivemos. Às vezes tivemos experiências em casa, com os pais, que criaram crenças, convicções que estão a limitar, hoje, as relações que temos.

Convicções do tipo: “se eu não fizer, se não ceder, deixarei de ser amado/a”. A oportunidade de trabalhar tudo isto fornece uma grande ajuda para ter relações mais estáveis, mais bonitas, mais alegres, mais amorosas, mais gentis, digamos assim.

 

Muitas pessoas reportam haver uma repetição de padrões nas suas relações. As nossas experiências nos primeiros anos de vida criam padrões de relacionamento que por vezes há dificuldade em quebrar porque são inconscientes. Pelo que entendi, nos vossos cursos, há também oportunidade de trazer à consciência esses padrões limitadores em que estamos a operar, que afirmamos não querer mas que se manifestam repetidamente e que não nos são favoráveis.

Sem dúvida. Ao perceber mais sobre nós, as nossas crenças, os nossos valores, as nossas limitações, a forma como no relacionamos, entendemos mais sobre o nosso papel naquilo que nos acontece.

Uma pessoa que tem dificuldade em impor limites, dizer que não, vai permitir o abuso. Abuso de qualquer tipo: psicológico, grande, pequeno, físico. Sem a autoconsciência necessária, ela vai culpar o outro e não entender a sua responsabilidade no sucedido.

Nos nossos cursos ajudamos os participantes a tomar consciência das suas limitações e oferecemos o espaço e as técnicas para as superar. Há um trabalho grande que se faz nesse sentido.

 

Consigo imaginar que os cursos podem muito úteis para fazer individualmente, por uma das pessoas da relação, mas também que possam ser interessantes para ser feitos em conjunto. Não sei se já tem acontecido.

Temos tido ambas as experiências. O desafio que ponho é o seguinte: vocês têm cumplicidade suficiente para trabalharem um com o outro? Se sim, vale a pena fazerem o curso juntos. Se estão numa relação mais difícil e acham que não estariam tão à vontade na presença um do outro, é melhor fazer em separado. Cada um investe no seu próprio desenvolvimento para encontrarem um diálogo comum. 

 

O encontro só se dá entre pessoas que se encontram consigo mesmas, não é?

Sim. É claro que as pessoas podem crescer em conjunto, perceber quanto uma relação pode ser enriquecedora em termos de crescimento pessoal. A relação íntima talvez seja a situação em que temos mais oportunidade de feedback e crescimento. É onde estamos muito próximos e, depois daquela primeira fase do encantamento, quando começamos a observar no outro atitudes ou coisas de que não gostamos tanto, começam a surgir conflitos e esse conflito é um feedback.

Esse conflito é onde recebemos a resposta do outro, e cada um pode examinar até que ponto é algo que eu tenho de trabalhar ou algo que é o outro que tem de trabalhar. 

 

É interessante ver o conflito como feedback e oportunidade de crescimento. O conflito muitas vezes é conotado apenas de forma negativa.

O confronto, o confronto aberto, é necessário. O conflito só é necessário quando reagimos ao feedback ou quando não conseguimos dizer as coisas.

É muito humano, quase todos nós temos isso – o querer ser delicado, não querer magoar, deixar passar achando que vai mudar. Então vai haver um momento em que o conflito precisa de se desencadear para que essas coisas sejam ditas.

Quando se desencadeia o conflito propriamente dito, são emoções muito básicas que vêm à tona: temos raiva e nesse momento há a energia necessária para dizer o que temos a dizer.

É por isso que os conflitos são importantes. Se se conseguisse dizer o que tem de ser dito sem o conflito, eles não aconteceriam. O que é necessário é a frontalidade e a compreensão das verdadeiras intenções, limitações e qualidades do outro.

À medida que a comunicação vai melhorando, o número de conflitos vai diminuindo. À medida que vamos conseguindo dizer o que pensamos e o que sentimos sem que o outros se ofenda, vai havendo muito mais paz e as pessoas vão ficando mais tranquilas, integradas e cúmplices, Vão aceitar muito mais.

É bonito quando se consegue falar abertamente, sem que o outro nos julgue ou se ofenda ou pense que o queremos mudar. Simplesmente amar, aceitar. Acho que essa é beleza do amor.